Por Dr. Rev. Wilson do Amaral

Certa vez, Jesus contou uma história sobre dois homens que construíram suas casas. Cada um escolheu um tipo diferente de terreno para encravar os alicerces de sua construção e edificar sua casa. Vamos imaginar que os dois haviam visto outras construções e tinham procurado informações de onde e como construí-las.

O primeiro escolheu edificar sua casa sobre a rocha e, por isso, demorou bem mais para edifica-la, tendo que realizar muito esforço para perfurar a rocha e ali colocar os alicerces de sua moradia. O outro escolheu a areia, um solo macio e fácil de escavar, porque talvez fosse mais ansioso e desejasse se mudar rapidamente, cravando ali as fundações de sua casa.

A história nos diz que em certo dia ambos tiveram problemas graves com a natureza: chuva, vento, inundação, etc.. A casa do primeiro permaneceu firme, não porque suas paredes eram fortes, mas especialmente porque as fundações de sua casa haviam sido postas na rocha. O segundo não teve o mesmo resultado e foi duramente surpreendido, porque sua casa, não importa quão sólida parecesse ser, foi levada pela enxurrada, porque as fundações da construção não tinham nenhum ponto de apoio para se segurar naquele terreno instável.

Quando Jesus contou essa história, estava, em verdade, ilustrando as pessoas e dividindo-as em dois grupos: as que ouvem e praticam seus ensinos, e as que ouvem, mas não praticam suas palavras. A diferença entre os dois construtores era esta: o primeiro era do tipo “ouvir-praticar”, enquanto o segundo era do tipo “ouvir-esquecer”. Doravante, vamos considerar ouvir-praticar como obediência e ouvir-esquecer como desobediência, porque é assim que as Escrituras nos ensinam.

No Antigo Testamento há uma palavra (shamá), cujo sentido é duplo: “ouvir” e “obedecer”. Quando shamá é utilizada para falar de Deus, significa que ele “ouve” nosso clamor e nosso louvor, porém não há qualquer referência bíblica que admita a possibilidade do Senhor nos obedecer ou acatar nossas exigências, porque Ele está sempre acima de nós. A única forma de obediência divina é a fidelidade à Sua própria vontade. Deus nunca muda, permanecendo fiel ao que estabeleceu por Sua palavra.

Quando shamá é aplicada a nós, significa que “ouvimos” o que Ele nos diz/determina e “obedecemos”, quando acatamos e seguimos o que acabamos de ouvir. Isto seria equivalente a construir sobre a rocha. Se Ele fala e nós ouvimos, porém nos distraímos e esquecemos, somos desobedientes. Isto seria como construir sobre a areia. O equivalente da palavra shamá no Novo Testamento é akouien, que significa “ouvir”, e hypakouien que significa “obedecer”. O prefixo hip faz com que o significado de ouvir ganhe o sentido de: “ouvir sob” ou “ouvir abaixo”, ou mais claramente “ouvir pondo-se numa posição abaixo em relação a quem fala”.

Assim, o termo obedecer ganha o sentido de acolher a palavra ouvida, passando a praticá-la por causa da importância de quem disse aquela palavra. Sabemos que Adão desobedeceu a Deus, porque ouviu Sua ordem a respeito de não comer do fruto do conhecimento do bem e do mal e, mesmo assim, comeu-o, ignorando quem lhe dera a ordem (Gn 3). Por outro lado, Abraão obedeceu a Deus porque ouviu Sua ordem e, mesmo sem ver qualquer lógica na vontade do Senhor, creu nEle e levou Isaque para ser sacrificado (Gn 22).

O moço rico desobedeceu a Cristo, porque ouviu a palavra do Senhor e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas e não queria abrir mão delas (Mt 19.22). Paulo obedeceu a Cristo, deixando tudo para trás como coisa inferior, para servir a Jesus como apóstolo, combatendo o bom combate até o fim (2 Tm 4.7).

Como podemos perceber, ouvir é uma ação da mente. Obedecer é uma ação mais complexa, envolvendo o avaliar quem nos falou, qual sua autoridade sobre nós, qual a consistência da ordem recebida, o que é esperado de nós e quais serão as consequências. Vemos na Bíblia que Deus muitas vezes deu mandamentos e leis, alguns temporários, outros permanentes, com a autoridade que lhe é própria como Criador, Salvador e sustentador da vida humana.

Ele deu a lei cerimonial a Israel e todos os israelitas deveriam cumpri-la, até que Jesus veio e a cumpriu em si mesmo, satisfazendo assim a justiça de Deus. Se não realizarmos nada da lei cerimonial do Antigo Testamento não estaremos desobedecendo ao Senhor. Todavia o Senhor disse que não deveríamos ter outro deus diante Dele (Ex 20.3). Essa determinação divina nunca será mudada. Entretanto, há dias em que O louvamos com muita intensidade e há dias em que construímos altares e reverenciamos objetos, pessoas ou situações, e isto revela que estamos em desobediência, a despeito de nossa salvação nos ter sido concedida em definitivo por meio da graça de Cristo mediante a fé.

Pela misericórdia divina, todo salvo tem a oportunidade (e a obrigação para com o Senhor), de confessar sua desobediência e, apesar de não merecer, ser trazido de volta à paz com Deus e com os irmãos, por meio do sangue de Cristo (1 Jo 1.5-10). Este é nosso compromisso constante, no âmbito da misericórdia divina, como parte de nossa fé. A obediência é vital para nossa saúde espiritual e a bem-aventurança em tudo que fizermos. Esta é a importância da obediência. Ela pode não parecer agradável à primeira vista, mas é a vontade de Deus para nossa vida e nos conduz ao triunfo. A obediência também evidencia o quanto amamos nosso Deus e quanto prezamos Sua Palavra.

Olhemos para Jesus, afinal, Ele “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8). Sua obediência fez com que muitos se tornassem justos (Rm 5.19). A obediência de Jesus se deu em duas direções: de um lado Ele obedeceu cada ponto da lei divina e assim satisfez a justiça de Deus; de outro lado Ele carregou sobre si todo o fracasso humano em obedecer a Deus. E fez tudo por sua própria e livre vontade. Voltemos, então, ao caso dos construtores das duas casas. Provavelmente o cidadão “ouvir-praticar” teve momentos de desânimo e dor, quando feria a pedra dura.

Mas resistiu à vontade de tomar um atalho e de rejeitar os conselhos mais experientes que respeitava muito. Refletiu sobre a possibilidade de perigos naturais e anteviu que se perseverasse em obedecer, essa atitude lhe proporcionaria uma casa segura. Enquanto isso, o cidadão “ouvir-esquecer”…Enfim, obedecer é melhor do que sacrificar (1 Sm 15.22). Obedecer é fundamental para nossa vida. Que o Senhor nos abençoe e nos ajude.

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